CONTO · FICÇÃO · Década de 1970

Quando o sino parou

Quando o sino da Igreja Nossa Senhora do Brasil para de tocar, os moradores percebem quanto aquele som orientava a rotina do bairro. Entre pequenos atrasos e hábitos alterados, Pepe descobre que até Seu Amaro dependia do sino para marcar o tempo.

Obra de ficção. Personagens e situações pertencem ao universo de Histórias da Mureta.

Na segunda-feira, ninguém falou do sino.
Na terça, Dona Amália comentou que tinha acordado com a sensação de estar atrasada.
— Atrasada pra quê? — perguntou Pepe.
Ela parou com a sacola de pão no braço.
— Não sei. Mas atrasada.
Seu Manuel, que abria o botequim quase sempre na mesma hora, chegou depois do costume e levantou a porta de ferro reclamando do calor.
Na quarta-feira, alguém finalmente percebeu.
— O sino.
Pepe olhou para a igreja.
— Que tem?
— Não tocou.
Ele esperou um pouco, como se o sino pudesse se defender da acusação.
— Padre dormiu.
Seu Amaro estava sentado perto da Mureta, remendando uma linha.
— Você acha que é o padre que fica puxando aquilo o dia inteiro?
Pepe deu de ombros.
— Nunca pensei nisso.
— Dá pra notar.
A notícia chegou antes do almoço.
Uma peça tinha quebrado.
Nada de raio, promessa, castigo ou milagre. Uma peça de metal havia cansado. Também falaram de uma corda gasta. Cada pessoa acrescentava uma parte, e em pouco tempo já havia quem soubesse até o preço do conserto sem nunca ter entrado onde ficava o sino.
O fato era que ele não tocava.
E foi aí que começaram a notar quanto escutavam.
Dona Amália chamou o neto para almoçar antes da hora.
Seu Manuel abriu tarde de novo.
Um casal combinou de se encontrar perto da igreja e passou quase vinte minutos discutindo qual dos dois tinha chegado primeiro.
— Eu estava aqui no horário.
— No seu horário.
— No horário certo.
— E cadê o certo?
Pepe contou a história na Mureta e achou graça.
— O bairro inteiro perdido porque um sino parou.
Seu Amaro continuou mexendo na linha.
— Você também perguntou as horas duas vezes hoje.
Pepe virou para ele.
— Perguntei?
— Uma pra mim. Uma pro João.
— Eu estava só conferindo.
— Então pergunta a terceira e faz a média.
Pepe riu.
Na quinta-feira, o silêncio já tinha virado assunto.
Não um grande assunto. Ninguém suspendia o que estava fazendo por causa dele. A vida continuava. Barcos entravam e saíam. Garrafas batiam no balcão. Crianças passavam correndo. O ônibus vinha quando queria.
Mas alguma coisa faltava no meio dos outros sons.
Era mais fácil perceber no fim da manhã.
O bairro tinha buzina, motor, rádio, gente chamando da janela, cachorro, martelo, cadeira raspando no chão. Mesmo assim, quando chegava a hora em que o sino costumava tocar, algumas cabeças se levantavam antes de lembrar que não haveria nada.
Pepe começou a reparar nisso.
Também começou a reparar em Seu Amaro.
Todos os dias, perto do meio-dia, ele recolhia as coisas quase na mesma hora. Guardava linha, pano, faca, o que estivesse usando. Não consultava relógio.
Na sexta-feira, permaneceu sentado.
Pepe esperou.
Amaro continuou ali.
Mais alguns minutos.
— Não vai embora, não?
Seu Amaro olhou para ele.
— Tô indo.
Não se mexeu.
Pepe sorriu.
— Tá esperando o quê?
Amaro começou a guardar a linha.
— Nada.
— Sei.
— Sabe o quê?
— Nada.
Seu Amaro amarrou o pano em volta dos apetrechos com força desnecessária.
Pepe teve o bom senso de parar por ali.
Naquela tarde, souberam que o conserto tinha atrasado.
O homem que conhecia o mecanismo não aparecera. Depois disseram que aparecera, mas a peça não servia. Mais tarde, que a corda nova estava errada. O padre discutia preço com alguém. Seu Manuel resumiu tudo no balcão:
— Até o santo depende de manutenção.
No sábado, Dona Amália chegou à Mureta com pão ainda morno dentro de uma sacola de papel.
Sentou-se.
Ficou um tempo olhando a água.
— Hoje a tarde demorou a começar.
Pepe apontou para o sol.
— Já começou faz horas.
Ela ajeitou a sacola no colo.
— Eu sei.
Seu Amaro estava perto deles. Não disse nada.
Dessa vez Pepe também não.
No domingo, pouco antes do meio-dia, o primeiro toque saiu errado.
Fraco.
Curto.
Seu Manuel levantou os olhos de uma garrafa que enxugava.
Dona Amália parou no meio da conversa.
Pepe virou para a igreja.
Veio outro toque.
Melhor.
Depois o sino bateu inteiro.
O som passou pelas fachadas, atravessou as ruas e chegou à Mureta como se não tivesse acontecido nada durante a semana.
Dona Amália fez o sinal da cruz.
Só percebeu depois.
Seu Manuel apoiou a garrafa no balcão.
Uma mulher saiu de uma janela e olhou para cima sem motivo algum.
Pepe abriu um sorriso.
— Pronto. Consertaram.
Seu Amaro não respondeu.
Estava enrolando uma linha.
O sino tocou de novo.
Ele terminou o nó, guardou o carretel e se levantou.
Pepe acompanhou tudo.
— Olha aí.
— O quê?
— Nada.
Amaro pegou as coisas.
— Fala.
— O senhor sabe que pode comprar um relógio, né?
Seu Amaro encarou Pepe por um instante.
Depois olhou para o pulso nu.
— Posso.
— Então?
— Aí eu vou ter que lembrar de olhar.
Pegou o embrulho e começou a andar.
Pepe ficou rindo sozinho.
Quando o último toque acabou, o bairro voltou aos seus outros barulhos.
Na segunda-feira seguinte, o sino tocou de manhã.
Ninguém comentou.
Seu Manuel abriu no horário. Dona Amália comprou pão. Pepe apareceu na Mureta e encontrou Seu Amaro já sentado, mexendo nas linhas.
Perto do meio-dia, o sino bateu.
Amaro guardou as coisas.
Pepe viu.
Dessa vez, deixou passar.

Atualização da edição 3: Correção no resumo.

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