CONTO · FICÇÃO · anos de 1970
Camarão Vivo
Na Urca, um menino acompanha um pescador italiano que lhe promete uma primeira pescaria com camarão vivo. O que deveria ser uma saída simples pelo bairro se transforma numa longa busca pela isca, atravessando parte do Rio até Sepetiba. Antes mesmo de aprender a pescar, Alexandre descobre o peso de uma promessa cumprida.
Obra de ficção. Personagens e situações pertencem ao universo de Histórias da Mureta.
Alexandre ainda não pescava.
Ficava olhando.
Naquela idade, isso já era uma ocupação bastante séria.
Andava pelo paredão e parava perto dos homens que chegavam com linha, anzol, balde, pano velho, caixa de pesca. Observava o jeito de cada um mexer nas coisas. Havia quem desse nó depressa, quem puxasse a linha entre os dedos antes de lançar, quem falasse com todo mundo e quem parecesse precisar de silêncio para um trabalho que, visto de fora, consistia apenas em jogar alguma coisa no mar e esperar.
Havia um desses homens que era impossível não ver.
Um italiano de Parma, na Emília, grandão, gigante mesmo, daqueles que parecem ocupar mais espaço quando estão de pé. Gostava de pescar. Alexandre gostava de vê-lo pescando.
O italiano também já tinha reparado no menino.
Não era uma criança qualquer rondando as coisas dele. Era filho de amigos. Na Urca, isso fazia diferença. Antes de uma criança dizer quem era, muitas vezes algum adulto já sabia.
Alexandre começou olhando de longe.
Depois de perto.
Depois perto demais.
Até que a vontade saiu.
Queria pescar.
Nunca tinha pescado.
Para o italiano, aquilo aparentemente era um problema de solução simples.
— Amanhã tu vai pescar com camarão vivo. Tu vai ver o que é matar peixe.
Estava feita a promessa.
Talvez um homem mais prudente tivesse dito “se tiver camarão”, “se der tempo”, “vamos ver”. Adultos usam essas expressões justamente porque conhecem o perigo de prometer coisas a crianças.
Ele não usou nenhuma delas.
Por isso, no dia seguinte, Alexandre acordou às quatro da manhã.
Não precisava.
Tinham combinado de sair às cinco e quinze.
Mas explicar isso para um menino que ia pescar pela primeira vez seria perder tempo.
Ainda estava escuro quando Alexandre abriu os olhos. Ficou esperando a hora passar, provavelmente fazendo aquilo que toda criança faz quando sabe que alguma coisa importante vai acontecer: tentando não dormir de novo e, ao mesmo tempo, desejando que os minutos corressem mais depressa.
Às cinco e quinze, saiu com o italiano.
O plano era simples: pegar o Fiat 147 verde-claro, comprar camarão vivo, voltar e pescar.
No Quadrado da Urca resolveriam aquilo rapidamente.
Não resolveram.
Não havia camarão vivo.
Tudo bem.
Tentariam mais adiante.
O Fiat seguiu.
Alexandre ia junto.
Para o menino, talvez ainda não houvesse problema. Tinham dito que ele pescaria com camarão vivo. Portanto, estavam procurando camarão vivo. A lógica infantil podia ser muito mais simples que a situação.
Para o italiano, cada tentativa sem camarão tornava a frase do dia anterior um pouco mais pesada.
Seguiram em direção à Barra.
Tentaram pelo Canal da Barra da Tijuca.
Nada.
Foram adiante.
Recreio dos Bandeirantes.
Nada.
A pescaria de Alexandre já tinha começado de um jeito que nenhum dos dois havia previsto.
O mar continuava ali, aparecendo e desaparecendo ao longo do caminho, mas a Urca ficava cada vez mais longe.
Em algum ponto, qualquer adulto razoável teria argumentos suficientes para desistir.
Tinham acordado cedo.
Já haviam procurado bastante.
O camarão não aparecia.
Ainda precisavam voltar.
Seria perfeitamente aceitável dizer:
— Hoje não deu. Outro dia a gente pesca.
A criança provavelmente aceitaria. Talvez ficasse decepcionada por algum tempo, mas sobreviveria. Crianças sobrevivem diariamente às promessas que os adultos não cumprem.
O italiano, aparentemente, não achava que esse fosse o problema.
O problema era ter dito.
Então o Fiat continuou.
Passaram o Recreio e seguiram mais longe, até a entrada da Restinga da Marambaia, em Sepetiba.
Ali, finalmente, encontraram.
Camarão vivo.
Não havia motivo para comemoração exagerada.
Era camarão.
Uma coisa pequena o suficiente para caber num balde.
Mas havia agora, entre um homem e um menino, uma questão resolvida.
Ele tinha prometido.
O camarão estava ali.
Restava o peixe.
Voltaram para a Urca.
Alexandre continuava no carro.
Tinha acordado às quatro da manhã imaginando que a aventura seria pegar peixe. Antes de lançar a primeira linha, já tinha atravessado uma boa parte do Rio atrás da isca.
Quando enfim chegaram novamente ao bairro, encontraram o paredão, as casas e aquele pedaço conhecido de mar onde tudo deveria ter começado muitas horas antes.
Só então começou a pescaria.
Alexandre finalmente ia pescar.
Com camarão vivo.
Como combinado.
O italiano preparou tudo.
Dessa vez o menino não estava apenas olhando o trabalho dos outros. Havia uma linha para acompanhar, uma isca que se mexia e aquele pedaço de água conhecido que, de repente, parecia esconder alguma coisa lá embaixo.
Então veio a primeira garoupa.
E outra.
E outra.
A pescaria funcionou.
Funcionou muito.
Ali, diante da casa do italiano, os dois pegaram garoupas em quantidade suficiente para que, muitos anos depois, Alexandre ainda contasse essa parte da história com a linguagem reservada às pescarias que não precisam mais provar nada a ninguém.
Mas, quando alguém quis saber se ele tinha realmente acompanhado toda aquela procura pelo camarão, Alexandre não falou primeiro dos peixes.
— Fui eu! Ele me levou! Eu era a criança! Eu era a criança!
Era isso que importava esclarecer.
Ele estava no Fiat.
Saiu da Urca.
Passou pelo Canal da Barra.
Seguiu pelo Recreio.
Foi até a entrada da Restinga da Marambaia, em Sepetiba.
E voltou.
Uma pescaria que deveria ter começado ali mesmo, no bairro, precisou primeiro atravessar uma parte considerável da cidade.
Talvez por isso a lembrança tenha sobrevivido inteira.
As garoupas ficaram porque foram pescadas.
O camarão ficou porque foi difícil encontrar.
O Fiat 147 verde-claro ficou porque carregou um homem e um menino para longe de casa atrás de uma promessa aparentemente desproporcional ao tamanho da isca.
E ficaram também aquelas primeiras horas da manhã.
Alexandre acordando às quatro.
Esperando cinco e quinze.
Sem saber que, antes de aprender a pescar, passaria o dia aprendendo outra coisa.
No paredão, antes daquela manhã, Alexandre era um menino que ficava olhando um italiano grandão pescar.
Quando voltou, ainda era um menino.
Mas agora tinha uma história que começava muito antes do primeiro peixe.
Começava quando um homem dizia que faria uma coisa.
E, no dia seguinte, aparecia para fazer.
Atualização da edição 1: Registro inicial com referência impessoal ao italiano de Parma, na Emília, conforme solicitado pelo colaborador.