CONTO · FICÇÃO · década de1970
Peixe de Ouro da Laje
A ambição atrapalhando a tomada de decisão.
Obra de ficção. Personagens e situações pertencem ao universo de Histórias da Mureta.
A moto de Pepe cabia dobrada no bolso.
Num verão dos anos 70, ele carregava o anúncio para todo lado e já falava da máquina como se estivesse estacionada em casa. Naquela manhã, abriu o papel sobre uma caixa no Quadrado e chamou Aurora.
— Olha isso.
Ela olhou.
— Bonita.
Pepe sorriu.
— Sabia.
— Falei da moto.
O Boa Hora balançava preso junto à borda. Amaro, sentado perto dele, limpava duas corvinas e ouvia a conversa sem participar. Cb João passou carregando uma caixa de garrafas, deixou um café ao lado dele e seguiu adiante.
Pepe recolheu o anúncio.
— Pode rir. Quando eu aparecer com ela aqui, quero ver.
— Vai comprar quando? — perguntou Aurora.
Era a pergunta que ele estava esperando.
Tinha aparecido um serviço. Queriam um peixe grande para um jantar e pagariam muito bem se ele conseguisse. Um mero seria perfeito.
— Dá para a entrada — disse, batendo no bolso.
Amaro parou a faca.
— Vai buscar onde?
— Na Laje.
— Quando?
— Hoje.
— Com quem?
Pepe demorou um pouco.
— Comigo.
Amaro tornou a limpar o peixe.
— Hoje, não.
— Por quê?
— Porque não.
Pepe bufou.
— Isso não é resposta.
Amaro apontou a faca para ele.
— Então leva a resposta comprida: você quer sair sozinho, voltar de madrugada e está pensando mais na moto que no mar.
— Eu sei pescar.
— Sabe.
Aquilo desarmou Pepe por um instante.
— Então?
— Então amanhã você continua sabendo.
Pepe guardou o anúncio.
O assunto morreu ali.
Ou pareceu morrer.
Já era noite quando ele voltou ao Quadrado.
O Boa Hora balançava preso no mesmo lugar. Pepe conhecia o barco desde menino, sabia onde Amaro guardava a chave, onde ficava a faca e qual tábua rangia quando alguém pisava perto da popa.
Desamarrou a embarcação e saiu.
A travessia foi tranquila. Perto da Laje, fundeou, iscou uma sardinha inteira e lançou.
Durante muito tempo não aconteceu nada.
Depois a linha correu.
Pepe agarrou.
O que estava lá embaixo não veio.
Puxou novamente e sentiu o nylon queimar os dedos. Afrouxou um pouco, recuperou linha, perdeu outra vez. O peixe mergulhava pesado.
Pepe esqueceu a moto.
Esqueceu o dinheiro.
Queria tirar aquilo da água.
Num dos puxões, o Boa Hora atravessou de lado. Pepe tentou corrigir a posição sem largar a linha. O casco raspou numa pedra com um estalo que ele sentiu nos pés.
Olhou para baixo.
Água.
Pouca ainda, mas entrando.
Foi quando o peixe puxou outra vez.
A linha se enrolou na mão e Pepe perdeu o equilíbrio.
Caiu.
A água fria apagou de uma vez toda a valentia daquela noite. Ele tentou alcançar o barco, mas a linha apertava os dedos e puxava na direção contrária.
Amaro dizia uma coisa havia anos:
— Linha não se abraça.
Pepe finalmente entendeu.
Só que estava dentro d'água.
Conseguiu alcançar a borda do Boa Hora, esticou o braço para debaixo do banco e achou a faca. Cortou o nylon.
A força desapareceu.
O peixe levou linha, anzol, sardinha e a parte mais cara daquela pescaria.
Pepe ficou com o barco furado.
Amaro chegou ao Quadrado antes do amanhecer e encontrou o lugar vazio.
Não fez escândalo. Perguntou pelo Boa Hora, depois por Pepe.
Ninguém sabia.
Quando alguém disse ter visto o rapaz por ali tarde da noite, Amaro foi para a beira da água.
Cb João apareceu com café.
— Ele sabe voltar.
— Sei.
— O barco também.
Amaro não respondeu.
O dia já clareava quando o Boa Hora surgiu.
Pepe vinha devagar, alternando a mão no leme com um balde. Tirava água e jogava para fora. Tirava água e jogava para fora.
Quando encostou, João segurou a proa. Aurora chegou logo depois.
Um dos homens que estavam por perto abriu a boca para fazer graça, viu as mãos cortadas de Pepe e desistiu.
Amaro também viu.
— Senta.
— O barco...
— Senta.
Aurora lavou os cortes. Amaro ajudou a enrolar um pano na mão direita e só depois foi examinar o Boa Hora.
A pancada tinha aberto parte do costado.
— Seu Amaro...
— Você pegou meu barco sem pedir.
Pepe baixou a cabeça.
— Peguei.
— Foi para a Laje sozinho.
— Fui.
— De noite.
— Fui.
Amaro passou a mão pela madeira machucada.
— Depois a gente conversa.
Pepe esperou.
— Só isso?
Amaro olhou para ele.
— Você queria mais?
Não queria.
No dia seguinte, Pepe apareceu com o dinheiro da moto dentro de um envelope.
Amaro contou.
— Não paga tudo.
— Eu sei.
— Vai faltar material.
— Eu trabalho.
E trabalhou.
Durante os dias seguintes, os dois desmontaram a parte danificada do Boa Hora. Pepe lixou, carregou madeira, buscou ferramenta e ouviu poucas reclamações — bem menos do que esperava.
Perdeu também um serviço que tinha prometido fazer naquela semana.
Essa notícia doeu quase tanto quanto entregar o envelope.
— Desse jeito compro a moto quando estiver velho.
Amaro continuou trabalhando.
— Velho também anda de moto.
— Não ajuda.
— Não estava tentando.
Foi durante o reparo que Amaro encontrou uma parte escurecida por dentro do costado.
Apertou a madeira com a chave de fenda. Ela cedeu.
Pepe percebeu.
— Isso já estava assim?
Amaro examinou mais um pouco.
— Estava começando.
Pepe quase sorriu.
— Então...
— Não.
— Eu nem falei nada.
— Mas ia.
Amaro arrancou mais um pedaço da madeira ruim.
— Eu devia ter visto antes.
Pepe ficou quieto.
Era a primeira vez desde o acidente que a culpa diminuía sem que ele precisasse inventar desculpa.
Amaro entregou a lixa.
— Continua.
Quando o Boa Hora voltou para a água, Pepe entrou no Quadrado ao lado de Amaro e empurrou a popa.
Cb João assistiu da margem. Aurora passou, viu os dois na água e levantou a mão.
O barco flutuou direito.
Pepe tirou do bolso o que restava do anúncio. O papel tinha passado pela água e pelo sol; da moto sobravam parte do guidão e algumas letras.
Amaro viu.
— Ainda quer?
— Claro.
— Então trabalha.
Pepe guardou o papel.
— E se aparecer outro mero?
Amaro entrou no Boa Hora.
— Aí você me chama.
Pepe segurou a lateral do barco.
— Pra ajudar?
Amaro pegou o leme.
— Pra impedir você de ir.
Pepe começou a rir.
Amaro também.
E dessa vez os dois saíram juntos.